CBD vs THC: Quais são as diferenças?

CBD vs THC

Em Portugal, e um pouco por todo o mundo, temos assistido a um crescente interesse no que diz respeito à planta de canábis e aos seus variadíssimos derivados. Um óleo aqui, um creme ali, e de repente todos têm os olhos postos nas propriedades “mágicas” desta planta.

Acompanhando esse interesse vem também, claro, alguma especulação e dúvida. Muitos se questionam em relação aos seus efeitos e também ao seu estado legal em Portugal.

“Vai fazer-me algum mal? É legal, sequer?”

Calma, vamos por partes.

A planta de canábis possui mais de 100 canabinóides — compostos naturais que atuam diretamente com recetores presentes no nosso corpo, influenciando o seu funcionamento.

O delta-9-tetrahydrocannabinol (THC) e o Canabidiol (CBD) são apenas dois dos canabinóides que podemos encontrar na planta de canábis, mas são aqueles que encontramos em maior abundância e também os mais estudados até então. Ambos interagem diretamente com o sistema endocanabinóide, mas têm efeitos distintos.

Neste artigo, vamos desmistificar estes dois compostos para que possas compreender melhor os seus efeitos no teu corpo e quais são as suas utilizações mais comuns.

O que é o CBD?

CBD é a abreviação do composto com o nome Canabidiol. A par do THC, é um dos principais compostos orgânicos presentes na planta de canábis e tornou-se especialmente popular no decorrer dos últimos anos.

O CBD não dá “moca” e está associado com o alívio terapêutico de uma variadíssima lista de condições como ansiedade, insónias, dor crónica e muito mais. Pode ser consumido de várias formas diferentes, mas a mais comum e eficaz é através de óleos CBD concentrados.

Pode ser encontrado na planta de canábis, tal como o THC, mas também no cânhamo industrial. O último, é uma variedade da planta Cannabis sativa que é plantada especificamente para uso industrial e respetivos produtos derivados. Com uma concentração inferior a 0.2% de THC, é utilizada para produzir roupas, suplementos alimentares e produtos com fins medicinais.

O que é o THC?

THC é a abreviação do composto com o nome delta-9-tetrahydrocannabinol. É o principal canabinóide com efeitos psicoativos que encontramos na canábis, responsável pela sensação de “moca” que é muitas vezes associada ao consumo desta planta. 

O consumo de THC foi popularizado através da canábis fumada, mas, tal como com o CBD, é possível obter os benefícios deste composto através de formas menos prejudiciais ao nosso organismo. Encontramo-lo disponível sob a forma de óleos, comestíveis, cápsulas, entre outros.

Quando entra no nosso corpo, o THC percorre o seu caminho até ao nosso cérebro, onde se cruza com receptores CB1, encontrados principalmente no nosso sistema nervoso central. É desta interação que nasce a sensação de “felicidade extrema” ou euforia.

O que e CBD e THC

CBD vs. THC: Estrutura química

O CBD e o THC apresentam uma estrutura molecular praticamente idêntica: 21 átomos de carbono, 30 átomos de hidrogénio e 2 átomos de óxigénio. É uma ligeira diferença na forma como estão organizados que é responsável pelos seus efeitos distintos no corpo humano.

Tanto um como o outro são quimicamente semelhantes aos endocanabinóides já presentes no nosso corpo e é esta similaridade que os permite interagir com os recetores canabinóides no nosso sistema.

A sua interação dispara os neurotransmissores no cérebro, que são responsáveis por receber e enviar mensagens para as nossas células com papéis importantes em funções como a dor, a imunidade, o stress, o sono, entre outros.

Apesar da sua semelhança estrutural, o CBD e o THC apresentam diferenças fisiológicas marcantes que por sua vez influenciam a sua interação com o sistema endocanabinóide, resultando em benefícios distintos. De seguida, olhamos para estes com mais detalhe.

CBD vs. THC: Benefícios médicos

O CBD e o THC partilham muitos dos seus benefícios, tendo a capacidade de promover o alívio em várias das mesmas condições médicas. No entanto, o CBD não produz efeitos eufóricos, o que faz com que muita gente o prefira ao invés do THC.

Em junho de 2018, a Food and Drug Administration (FDA), agência federal americana do departamento da saúde e serviços humanos, aprovou o primeiro medicamento à base de Canabidiol. O Epidiolex é utilizado para tratar condições raras de epilepsia que de outra forma seriam difíceis de controlar.

O CBD é também utilizado para tratar várias outras condições, tais como:

  • Inflamação
  • Dor
  • Psicose, ou outro tipo de distúrbios mentais
  • Doença inflamatória intestinal
  • Náusea
  • Enxaquecas
  • Depressão
  • Ansiedade

No caso do THC, o mesmo é preferido por contribuir ativamente no tratamento de condições como:

  • Espasticidade muscular
  • Glaucoma
  • Insónias
  • Baixo apetite
  • Dor
  • Náusea
  • Ansiedade

CBD vs. THC: Psicoatividade

Apesar de apresentarem estruturas químicas semelhantes, o CBD e o THC não apresentam as mesmas propriedades psicoativas.

Talvez a principal diferença entre estes dois canabinóides é que, ao contrário do CBD, o THC é o principal responsável por alterar o nosso estado de consciência. Ainda assim, não podemos afirmar que o CBD não seja psicoativo, porque ele também atua no nosso sistema nervoso central. A forma correta de diferenciá-los é dizendo que o THC é psicotomimético, ou psicadélico, enquanto que o CBD não.

O CBD é psicoativo, mas não da mesma forma que o THC. Os utilizadores de CBD não experienciam a “moca” associada ao consumo de THC, mas sim alterações no seu sistema que ajudam a lidar com problemas como a ansiedade, a depressão e outras condições como a epilepsia.

As propriedades psicoativas do THC atuam principalmente no sistema nervoso central, responsável por alterar a nossa função cerebral e mudar temporariamente a nossa percepção, humor e também a nossa consciência. Essa alteração é geralmente associada com a utilização recreativa da canábis.

Efeitos secundários e segurança

Ao contrário do CBD, as propriedades psicadélicas do THC podem causar efeitos secundários temporários, tais como:

  • Perda de memória
  • Tempo de reação reduzido
  • Aumento da frequência cardíaca
  • Aumento do apetite
  • Secura na boca
  • Olhos vermelhos, ou vasodilatação

Existem também evidências de que o consumo de variedades de canábis com teor elevado de THC podem causar efeitos negativos a longo prazo, incluindo um maior risco de desenvolver doenças psiquiátricas como a esquizofrenia.

Embora o consumo de THC apresente alguns efeitos secundários negativos, estudos comprovam que é impossível ter uma overdose fatal com este canabinóide. (1)

Em relação ao CBD, um estudo recente sobre a segurança e efeitos secundários deste composto concluiu que a sua utilização é segura em humanos e até mesmo em animais. A utilização crónica de CBD demonstrou não causar efeitos clínicos adversos, nem neurológicos ou psiquiátricos. (2)

A situação legal do THC e do CBD em Portugal

Em 2001, Portugal descriminalizou a aquisição, posse e consumo de canábis e qualquer substância psicotrópica, sendo possível, de acordo com a Lei nº 30/2000 (3), possuir até dez doses diárias para consumo pessoal.

No caso da canábis, a dose diária para consumo pessoal foi determinada como 2.5 gramas, o que implica que é possível possuir até 25 gramas sem quaisquer implicações legais.

Ainda assim, a situação em Portugal permanece numa zona algo cinzenta.

Em relação aos produtos com teor mais elevado de THC, por exemplo, a sua venda e distribuição não está autorizada, mas a sua posse não é recriminada. Assim, cabe ao utilizador arranjar uma forma de obter o produto, fomentando a existência de um mercado paralelo sem qualquer regulamentação.

No entanto, no que diz respeito ao CBD, a legislação é clara ao permitir a venda de produtos à base deste canabinóide desde que a origem seja o cânhamo, onde os níveis de THC não excedem os 0.2% e, por consequência, não produzem efeitos psicoativos.

A sua utilização para fins medicinais foi aprovada na Assembleia da República em 2018, mas a regulação dita que é necessária uma prescrição médica que requer ao consumidor levantá-la numa farmácia. A limitação é ultrapassada ao disponibilizar estes mesmos produtos como suplementos alimentares, estando disponíveis em muitos outros locais que não as farmácias e sem a necessidade de uma receita médica.

Em suma, a utilização da canábis em Portugal, quer para fins recreativos ou medicinais, não constitui um crime aos olhos da lei.

As lições finais

Como pudeste ver ao longo deste artigo, tanto o CBD como o THC estão dotados de vários benefícios médicos. Os dois compostos ligam perfeitamente com o sistema endocanabinóide do corpo humano através dos seus recetores, promovendo um equilíbrio dos nossos sistemas vitais.

Ambos são considerados seguros para consumo, mas é necessário também ter em atenção a possibilidade de efeitos secundários e a sua possível interação com outros medicamentos que estejas a tomar. Em caso de dúvida, a melhor opção é falares com o teu médico para garantir que os utilizas em segurança.

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